A Influência do Exercício de Resistência na Força de Membros Superiores e Inferiores em Homens Adultos
Introdução
A atividade física promove uma série de benefícios para a saúde. Isso pode ser observado tanto no treinamento aeróbio como no treinamento resistido, de forma diferenciada. Observa-se, como resultados do trabalho aeróbio, o aumento da capacidade funcional cardiorrespiratória (Schneider et al., 2002), redução das respostas cardiovasculares de repouso (Whelton et al., 2002), aumento do número e tamanho das mitocôndrias (Pollock e Wilmore, 1978), aumento do volume de ejeção, a saturação da hemoglobina, melhora da condição da rede vascular (Wilmore e Costill, 1994) e aumento da capacidade de resistir à fadiga (Berg, 2003). Para isso, recomenda-se que, indivíduos saudáveis, realizem exercícios de 15 a 60 minutos, 3 a 5 vezes por semana, com intensidade de 70% a 90% da Fcmáx. (220-idade) (Fardy apud Fleck e Kraemer, 1999).
Já nos exercícios resistidos, observa-se uma resposta adaptativa com elevados ganhos de força.Constatam-se, também, melhora da coordenação inter e intramuscular (Fukunaga apud Weineck, 2000). Já em nível celular, verifica-se o aumento da secção transversa do músculo (Rhea et al., 2003) e possível aumento do número de fibras musculares (McCall et al., 1996). O treinamento de força contribui ainda, na prevenção da osteopenia (Vincent e Braith, 2002) e da sarcopenia (Roth et al., 2001), exercendo função profilática.
Com relação ao treinamento concorrente, ou seja, treinamento de resistência e força executados na mesma sessão de treinamento, a comunidade científica não possui um consenso sobre a influência de um sobre o outro, sendo que alguns autores sugerem que o treinamento de força é afetado negativamente pelo trabalho de resistência (Leveritt et al., 1999). Kraemer (1995), demonstrou que nos trabalhos simultâneos ocorre a inibição do desenvolvimento da força e da potência, porém não afeta negativamente a performance aeróbia. Já, Sale et al. (1990a) concluiu que treinamento de força e resistência, isolados ou combinados numa mesma sessão, não são concorrentes em suas adaptações fisiológicas.
Por ser o treinamento concorrente aplicado a atletas e população em geral, o assunto referido merece uma investigação mais profunda. Desse modo, o objetivo deste trabalho foi verificar a existência do comprometimento da performance nos exercícios de força, em homens adultos, após a aplicação do trabalho de resistência.
METODOLOGIA
Para o presente estudo foram selecionados 15 homens saudáveis, com faixa etária entre 20 e 32 (26±5 anos); com peso de 79,1±9,7 Kg; e 178,0±6,5 cm de altura, com prática no treinamento de força há, pelo menos, seis meses. Todos os participantes foram voluntários e assinaram um termo de consentimento, conforme a resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde para experimentos com humanos. Foram excluídos da amostra indivíduos que apresentaram problemas ósteo-mio-articulares e de desordens cardiorespiratórias.
Coleta de dados
O estudo foi conduzido em dias alternados. No primeiro dia, realizou-se o teste de oito repetições máximas (8 RM) no exercício supino horizontal e no leg-press45º. Estipulou-se para o teste entre duas e cinco tentativas para obtenção da carga, com intervalos de 2 a 5 minutos. No segundo dia, os alunos executaram quatro séries de 8 RM em cada exercício, com intervalo de 2 minutos, entre as séries, mantendo a ordem dos exercícios: supino e leg-press 45º. No último dia, foi realizado trabalho de resistência, executado em esteira ergométrica sem inclinação, com intensidade de 85% da Fcmáx. (220-idade), com duração de 20 minutos, monitorado com freqüencímetro cardíaco. Imediatamente após, realizaram-se 4 séries de 8 RM no supino horizontal e 4 séries de 8 RM no leg-press 45o com intervalo de 2 minutos entre as séries e entre os exercícios.
RESULTADOS
Utilizou-se a ANOVA fatorial de duas entradas com verificação post-hoc de Tukey para verificar a influência do exercício de resistência sobre o número de repetições em cada série de supino e do leg-press 45o. Considerou-se como significância estatística p<0,05.
O exercício de resistência não proporcionou qualquer alteração no número de repetições realizados em cada série, tanto para o supino horizontal quanto para o leg-press 45o. A Tabela 1 ilustra as médias observadas em cada série de cada exercício.
Tabela 1. Média e desvio padrão para cada uma das séries do supino e leg-press 45o, realizados sem e após o exercício de resistência.
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Sem exercício prévio Após exercício aeróbio
Séries Supino Leg-press Supino Leg-press
1 8,2±0,6 7,9±1,0 8,2±0,6 8,5±2,0
2 8,0±0,0 8,3±1,0 7,7±1,0 8,3±0,6
3 7,9±0,3 8,1±0,5 7,1±1,4 8,4±0,9
4 7,5±1,0 8,2±0,8 6,5±1,9 8,6±1,4
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O princípio do treinamento físico é regido pela especificidade, ou seja, adquire-se aquilo que se pratica. O organismo procura adaptar-se aos estímulos recebidos, alterando e adaptando estruturas morfológicas e fisiológicas a fim de melhorar sua capacidade funcional. Porém, não existe concordância entre os autores de que as adaptações ocorridas nos diferentes tipos de treinamento, força e resistência, possam ocorrer de forma otimizada, sem apresentar prejuízos, para uma ou ambas qualidades físicas envolvidas, quando o programa envolve treinamento concorrente de resistência e força, realizados numa mesma sessão, pois várias adaptações seriam consideradas antagônicas. Este parece ser o ponto de divergência maior entre tantas opiniões científicas, pois há dificuldade em se estabelecer comparações entre os vários artigos, uma vez que cada um possui um protocolo diferenciado, o que resulta em poucas conclusões e muitas dúvidas a respeito de tais adaptações, durante o treinamento concorrente. Outros fatores também contribuem para que esses resultados não estejam ainda totalmente elucidados, entre eles, poderíamos destacar o volume, intensidade, experiência pessoal de cada sujeito (histórico pessoal), nível de condicionamento e até mesmo alguns fatores psicológicos (capacidade de resistir e suportar fadiga, estresse, motivação pessoal, determinação), e hormonais (doping), que podem influenciar nos resultados e que são diferentes nos protocolos utilizados, ou então, não constam esclarecimentos em algumas das publicações lidas.
Segundo Hickson (1980), é impossível combinar força e resistência sem prejuízo para força muscular ao longo do programa. Tal afirmação parece ser consenso entre alguns autores, que afirmam que o treinamento de força não interfere sobre o trabalho de resistência, embora o inverso não seja verdadeiro, ou seja, o treinamento de resistência compromete os ganhos de força (McCarthy, 2002; Wood, 2001; Craig et al 1991; McCarthy 1995; Henessy e Watson 1994).
Sale et al. (1990b) pesquisou o desenvolvimento da força sob influência do treinamento de resistência imediatamente antes do treinamento de força. A força voluntária máxima e a capacidade aeróbia máxima (VO2 máx) foram medidas. Com o auxílio de tomografia computadorizada analisou a área de secção transversa do vasto lateral. Concluiu que o desenvolvimento da força é prejudicado no treinamento concorrente de força e resistência. A hipertrofia, contudo, foi similar am ambos os grupos, e o grupo do treinamento concorrente apresentou ainda um aumento maior na enzima oxidativa CS (sintetase citrate), embora a resistência aeróbia tenha sido similar nos dois grupos. Ressaltou ainda que as adaptações que ocorrem no desenvolvimento de ambas as valências são antagônicas, assim como a fadiga precoce poderia limitar (reduzir) o volume absoluto no treinamento de força, razões que poderiam explicar os resultados. Essa incompatibilidade nas adaptações foi descrita também por outros autores, que relatam que o treinamento de força promove uma hipertrofia da fibra muscular associada a um aumento nas proteínas contráteis, as quais contribuem para o aumento da força (Schantz 1983). Promove, também, diminuição da densidade capilar e densidade do volume mitocondrial (MacDougall et al 1979), ocasionando mudanças em detrimento da performance de resistência. O treinamento de resistência, por sua vez, causa um aumento da densidade capilar, do volume mitocondrial e nas enzimas oxidativas (Hoppeler 1986, Klausen et al 1981), o que melhora a capacidade de resistência. Todavia, o treinamento de resistência pode prejudicar a força por causar uma diminuição no tamanho das fibras musculares (Moroz e Houston 1987, Terrados et al 1986).
Em outro estudo, Sale et al. (1990a) conclui que o treinamento combinado de força e resistência não interfere com o desenvolvimento dessas qualidades físicas, quando comparado ao treinamento de força e resistência isoladamente.
Hickson (1980) apud Fleck e Kraemer (1999) observou diminuição na força dos membros inferiores no grupo que treinou simultaneamente força e resistência com alta intensidade, comparado com o grupo que treinou apenas força. Quanto ao grupo que treinou força e resistência, o aumento da performance da capacidade aeróbia não foi comprometido, em relação ao grupo que treinou apenas resistência; Entretanto, esse fato ainda parece confuso na literatura. Sale et al. (1990a) não observou alteração no VO2máx, enquanto McCarthy (1995) relatou que o treinamento combinado, três vezes por semana, pode aumentar o VO2máx em média 16%.
Baseado em dados de Fleck (1987), Chromiak e Mulvaney (1990), os estudos examinando o treinamento concorrente de alta intensidade de força e resistência apresentam conclusões similares. Todos constataram que a força e a potência muscular podem ser comprometidas pela execução prévia do treinamento de resistência; porém, o consumo máximo de oxigênio não é comprometido pela execução simultânea de treinamento de força e resistência e com isso a resistência não é afetada negativamente pelo treinamento concorrente. Esses autores afirmam que suas conclusões podem ser explicadas, ao menos parcialmente, devido à redução da capacidade de gerar força e tensão pela fadiga prévia proporcionada pelo trabalho de resistência, comprometendo as adaptações que seriam verificadas a longo prazo (Leveritt et al., 1999).
Em nosso estudo visamos esclarecer sobre a possível interferência que o treinamento de resistência pudesse exercer sobre a capacidade de gerar força, em jovens adultos masculinos, com tempo suficiente (pelo menos 24 semanas) em treinamento de força, para que já tivessem ocorrido as adaptações fisiológicas necessárias. Porém, nenhum sujeito da amostra portava grande experiência em treinamento de resistência. Apesar do pouco condicionamento referente a esta valência física e da demanda energética proporcionada pelo trabalho de resistência de intensidade relativamente alta, não constatamos decréscimos significativos na capacidade de realizar força. Porém, não foram investigados possíveis aumentos nos níveis de força. Este resultado pode ter ocorrido em função do volume do treinamento de resistência, onde a fadiga neuromuscular gerada, provavelmente ainda não está elevada, já que os níveis de glicogênio muscular estão mantidos. Para esta manutenção há necessidade de, pelo menos uma hora de exercício de alta intensidade, para reduzir em 55% os níveis de glicogênio hepático, e pelo menos 2 horas de exercício extenuante para quase depletar o glicogênio hepático e, mais especificamente, o dos músculos que estão sendo exercitados (McArdle, Katch, Katch 1998). Uma dieta deficiente em carboidratos depleta rapidamente o glicogênio muscular e hepático e pode afetar profundamente a capacidade de realizar um exercício, tanto anaeróbio de alta intensidade, quanto o aeróbio de longa duração (McArdle, Katch, Katch 1998), o que pode vir a interferir no desempenho do treinamento de força de forma sugestiva (Leveritt e Abernethy 1999), pois no treinamento concorrente, a demanda energética é maior, visto serem somados dois tipos de treinamento a serem realizados numa mesma sessão. Esse fato necessita ser mais investigado. Também acreditamos que contribuiu para os resultados a ordem de realização dos exercícios (supino seguido do leg press 45o), uma vez que a fadiga neuromuscular provavelmente estivesse maior nos membros inferiores devido à atividade aeróbia e, no emprego desta metodologia, transcorreu um tempo (os sujeitos da mostra realizaram o leg press 45º em torno de 10 minutos após iniciar a execução dos exercícios de membros superiores), que permitiu uma certa recuperação na musculatura dos membros inferiores. Como fator não menos relevante, questiona-se o tempo do programa de treinamento (em períodos de treinamento mais longos). Isso poderia ocasionar uma significativa queda no volume total de cada sessão de treinamento de força, já que volume, intensidade e duração do treinamento aeróbio poderiam influenciar os resultados. Referindo-se a treinamento de alto nível, isso poderia representar a diferença entre a performance de dois atletas? Talvez para o treinamento de simpatizantes do fitness e freqüentadores de academia, a diferença nos tipos de treinamento não seja tão importante.
Em outra hipótese questiona-se o estado inicial de treinamento e o gênero dos participantes. Indivíduos destreinados, treinados, ou atletas apresentariam as mesmas respostas para o mesmo volume e intensidade de treinamento apresentados neste trabalho? Indivíduos que já portassem adaptações referentes ao treinamento de resistência, ao iniciarem um treinamento concorrente de força e resistência, adaptar-se-iam tão bem ao treinamento de força como o fizeram no treinamento de resistência, ou as adaptações que são caracterizadas como antagônicas interfeririam nos novos processos de adaptação. É uma questão que necessita de novos estudos para ser esclarecida.
Diante de tantas hipóteses ainda não revisadas, cremos que muito estudo ainda se faz necessário, para que se estabeleça uma relação clara sobre os efeitos do treinamento concorrente no desenvolvimento da força.
CONCLUSÃO
Usando a metodologia descrita, não foi observada qualquer influência do treinamento de resistência no desempenho em realizar repetições máximas nos exercícios observados. No entanto, baseados nos artigos científicos referidos neste trabalho, sugerimos que a prescrição do exercício de força deva ser realizada antes do exercício de resistência.
Porém, há que se investigar mais sobre este assunto, para que todas as questões pertinentes, assim como as variáveis importantes e as adaptações decorrentes do treinamento concorrente sejam esclarecidas.
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UNIVERSIDADE GAMA FILHO
PÓS-GRADUAÇÃO – MUSCULAÇÃO E TREINAMENTO DE FORÇA
ALEXANDRE TELES PAIM
ÁTILA LLANTADA SEIBEL
CLOTÁRIO PORTUGAL
FLÁVIO JOSÉ MÔNACO
MARIA EMILIA FREIRES
SINCLAIR BOMBASSARO JUNIOR
Porto Alegre, setembro de 2003.

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